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As sete palavras de Jesus na cruz

 

Primeira Palavra

 

Chegando ao lugar chamado Caveira, lá o crucificaram, bem como os malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem" (Lc 23,33-34).

 

 

"Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" rezamos no Pai Nosso. Pedimos perdão a Deus, fazendo a solene promessa de perdoarmos aos que nos ofenderam. Não é fácil realizar o que prometemos. Existem chagas que custam cicatrizar. Há violências e injustiças que deixam como saldo um mar de sofrimentos. Há infidelidades e traições que ferem profundamente o coração. Há agressões e ódios que geram abismos quase intransponíveis entre as pessoas. No entanto, não há inimigos que resistam eternamente à bondade e ao amor. Não há ódio que um dia não sucumba ao poder do Amor. O primeiro passo para o perdão é desarmar-se interiormente. Quem perdoa é sempre mais forte do que quem ofendeu. O perdão é que gera vida, não o ódio e a vingança! Dizem que o ódio é como o fogo: arde, queima, se alastra, arrasa, reduz a cinzas. Se o ódio é como fogo, então o perdão é como a água! É a água que extingue as labaredas, é a água que apaga as chamas, é a água que vence o incêndio. Assim é o perdão que extingue as vinganças, é o perdão que apaga as inimizades, é o perdão que afoga as mágoas, é o perdão que vence o ódio.

 

 

Segunda Palavra

 

Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava, dizendo: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós." Mas ou outro, tomando a palavra, o repreendia: "Nem sequer temes a Deus, estando nas mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal". E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino". Ele respondeu: "Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,39-43).

 

Um dos malfeitores crucificados chama Jesus de "Cristo", o outro o reconhece com "Rei". Por causa destes dois títulos - um religioso, outro político - Jesus morre na cruz. Como "Cristo" Jesus é condenado por "blasfêmia" porque se declara "Filho de Deus" (cf. Mt 27,62-66) reivindicando para si a dignidade divina. Como "Rei" é considerado subversivo e agitador. Os chefes do povo conseguiram o que queriam: matar Jesus de Nazaré como perturbador da ordem pública e aos que o tiverem na conta de profeta tinha que ser apresentado como homem definitivamente derrotado, destruído, aniquilado. Um dos malfeitores faz coro aos insultos dos chefes que zombeteiramente lhe recomendam: "que salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Eleito" (Lc 23,35). Ele também grita: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós". O outro, porém, reconhece a inocência de Jesus e descobre na sua derradeira hora a verdadeira identidade de quem sofre ao seu lado o mesmo suplício. Entende que o Reino de Jesus não é deste mundo (cf. Jo 18,36), mas que Jesus é Rei e viera "ao mundo para dar testemunho da verdade" (Jo 18,37). A luz da verdade que ilumina o coração e a mente do "bom ladrão" gera de repente uma ilimitada confiança e o enche de certeza de que Jesus pode salvá-lo e perdoar-lhe os seus pecados, acolhendo-o no paraíso.

 

 

Terceira Palavra

 

Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, a de Cléofas, e Maria, a Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu (Jo 19,25-27)

 

Os soldados repartiram as vestes de Jesus em quatro partes, uma para cada soldado (cf. Jo 19,23). Quatro soldados! Quatro homens sentados, distribuindo entre si, em partes iguais, os últimos pertences de Jesus e jogando dados para ver quem fica com a peça principal, a túnica sem costura. Não foi a mãe que a teceu para Jesus? Em cada fibra se esconde um traço de seu amor materno. São quatro soldados, quatro partes de roupa e uma túnica que recorda a esses homens rudes que, afinal, o crucificado também tem mãe.

 

São também quatro as mulheres. Não estão sentadas, mas sim de pé junto à cruz. Só duas delas conhecemos mais de perto: Maria, a mãe de Jesus, e Maria, a Madalena. Mas no cenário de Golgotha se encontra ainda um outro personagem. O Evangelho não revela o nome. Diz apenas que ao lado da mãe de Jesus se encontrava "o discípulo a quem amava". Ele representa todos os filhos e filhas de Deus que são os discípulos e discípulas "a quem Jesus ama". São suas irmãs, seus irmãos amados, a quem, antes de morrer, confia como última e amorosa dádiva sua própria mãe. Na última ceia nos assegurou sua presença até o fim dos tempos no pão e no vinho que se transformam no Corpo e Sangue do Senhor: Corpo entregue, Sangue derramado. No alto da cruz completa o testamento, oferecendo-nos sua mãe como Mãe Nossa também por todos os séculos. É de uma comovente solenidade e de uma expressividade singular com que Jesus fala pela última vez a sua mãe. O seu testamento se completa com a palavra dirigida ao "discípulo a quem amava", a todas e todos nós: "Eis tua mãe!"

 

 

Quarta Palavra

 

Desde a hora sexta até a hora nona, houve treva em toda a terra. Por volta da hora nona, Jesus deu um grande grito: "Eli, Eli, lamá sabachthâni?", isto é: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27,45-46).

 

Pouco antes de morrer em meio aos crudelíssimos tormentos que o Império Romano reservou aos criminosos, Jesus começa a balbuciar, num derradeiro esforço entre dores inimagináveis o comovente e, ao mesmo tempo, horrendo Salmo 21 (22). Como não foi o impacto desse grito aos que assistiram ao terrível espetáculo, de modo que os evangelistas fizeram questão de transmiti-lo tal e qual como Jesus o bradou, na língua que aprendeu de sua mãe no lar de Nazaré!

 

Jesus passa pela angústia de sentir-se completamente abandonado, experimenta a noite escura da tremenda solidão em meio ao redemoinho de um indizível sofrimento que se fecha sobre ele. Tudo vira trevas, sem horizonte. Jesus vive essa experiência até ao extremo.

 

Muitos de nossos irmãos e irmãs experimentam essa solidão, a dor do abandono, de não entender mais nada, de duvidar da bondade de Deus, até de usar as palavras de Jó e amaldiçoar o dia em que nasceu: "Por que não morri ao deixar o ventre materno, ou pereci ao sair das entranhas? Por que me recebeu um regaço e seios me deram de mamar?" (Jó 3,11-12) Quantos são os gritos sobem dos "porões da humanidade": "Onde estás, ó meu Deus?" Quantas perguntas sem resposta! Ouvindo, porém, o grito de Jesus sabemos que ele, na cruz, sofreu conosco. Mesmo assim, o salmo 21(22) não é um salmo de desespero, mas em meio à toda a angústia e aos tormentos, a oração procura a Deus: "Pois és tu quem me tirou do ventre de minha mãe, quem me confiou ao seu peito; eu fui lançado a ti ao sair das entranhas. Desde o ventre materno tu és meu Deus " (Sl 21(22),10-11).

 

Há muita coisa em nossa vida que jamais entendemos. Nestas horas escuras não são palavras e pias considerações que nos consolam. Resta-nos, no silêncio, contemplar a cruz. Por mais escura que seja a noite, o sol volta sempre a brilhar! O "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" não é a última palavra. Deus dá seu Sim irrevogável à vida na manhã da Páscoa ao ressuscitar Jesus. A luz afugenta as trevas.

 

 

Quinta Palavra

 

Depois disso, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para que se cumprisse a Escritura até o fim, disse: “Tenho sede!” Havia ali, uma jarra cheia de vinagre. Amarrando uma esponja embebida de vinagre num ramo de hissopo levaram-na à sua boca (Jo 19,28-29)

 

A exclamação de Jesus pode ser uma alusão ao Salmo 68 (69),22: "Como alimento deram-me fel e na minha sede serviram-me vinagre". Não precisa ser zombaria, escárnio dos soldados. Pode até ser uma expressão de afeto para com esse pobre homem que, no estertor da morte, ardendo de dor e de febre por causa das inúmeras chagas, pede que lhe molhem pelo menos os lábios. É um pedido tão humilde e totalmente humano.

 

A sede de Deus é tema de comoventes orações do Antigo Testamento: "Assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh'alma por vós, ó meu Deus! Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus?" (Sl 41(42),2-3).

 

"Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minh'alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água" (Sl 62(63),2).

 

 

Sexta Palavra

 

Quando tomou o vinagre, Jesus disse: “Está consumado!”. E, inclinando a cabeça entregou o espírito (Jo 19,30).

 

O quarto Evangelho começa a narração da Última Ceia de Jesus com seus discípulos com as palavras: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim". A expressão "até o fim" na língua em que o Evangelho foi escrito, o Grego, se relaciona ao "Está consumado" que Jesus falou antes de morrer. É a mesma raiz gramatical que se encontra no "até o fim" e no "consumado". "Está consumado" não mais é um gemido de dor, mas já o anúncio antecipado da Vitória.

 

Contemplamos o Senhor crucificado, o corpo dilacerado pelos açoites, as mãos e os pés perfurados. "Está consumado!". O amor chegou ao extremo. Mas contemplamos na face ensanguentada de Jesus também os rostos de tantas irmãs e irmãos nossos que sofrem: comunidades indígenas e afro-americanas; mulheres excluídas, em razão de gênero, raça ou situação sócio-econômica; jovens que recebem uma educação de baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir; pobres, desempregados, migrantes, deslocados, agricultores sem terra; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil; dependentes de drogas, as pessoas com limitações físicas, os portadores e vítimas de enfermidades graves que sofrem a solidão; seqüestrados e os que são vítimas da violência, do terrorismo; anciãos recusados por sua família como pessoas incômodas e inúteis; os presos em situação desumana.

 

Só o Amor "até o fim", até ao extremo, consegue ver com os olhos de Deus os pobres e condenados à morte antes do tempo. Só este Amor consegue desvendar, a partir do coração de Deus, as causas dessa realidade iníqua.

 

 

Sétima Palavra

 

Era já mais ou menos a hora sexta quando o sol se apagou, e houve treva sobre a terra inteira até à hora nona, tendo desaparecido o sol. O véu do Santuário rasgou-se ao meio, e Jesus deu um forte grito: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" Dizendo isso, expirou. O centurião, vendo o que acontecera, glorificava a Deus, dizendo: "Realmente, este homem era justo!" (Lc 23,44-47).

 

Segundo o Evangelho de São Lucas, Jesus morre pronunciando o versículo 6 do Salmo 30 (31): Pai, "em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,46). O versículo se completa com as palavras "tu me resgatas, Senhor, Deus fiel“.

 

Agora, Jesus está morto. O centurião romano não consegue disfarçar seu assombro. Atesta a inocência do crucificado. Afirma que era "justo". O corpo é descido da cruz e sepultado. Rolaram uma grande pedra para a entrada do túmulo (cf. Mt 27,60). O fim definitivo!

 

Aparentemente, porque a história não termina aqui! "Ao raiar do primeiro dia da semana“ (Mt 28,1), "Maria Madalena e a outra Maria“ foram ao túmulo e receberam a notícia alvissareira: "Ele não está aqui, pois ressuscitou!" (Mt 28,6) E "elas, partindo depressa (...) Correram a anunciá-lo aos seus discípulos“ (Mt 28,8). São Marcos nos conta que Maria Madalena "foi anunciá-lo àqueles que tinham estado em companhia dele e que estavam aflitos e choravam" (Mc 16,10). Pelo SIM de uma mulher, Maria, Deus inicia sua maravilhosa obra salvífica, enviando o seu Filho. Foi também através de uma mulher, de outra Maria, que se inicia o anúncio pascal que atravessará os séculos. "É verdade! O Senhor ressuscitou!" (Lc 24,34). O primeiro anúncio "Ressuscitou!" coube às mulheres (Lc 24,1-10).

 

E essa Boa Nova atravessa os séculos e milênios. É proclamado em todos os rincões da terra, do norte ao sul, do leste ao oeste, em todas as línguas e culturas.

 

Minha irmã, meu irmão,

Dom João e eu, dom Erwin, lhes desejamos uma Santa e Feliz Páscoa da Ressurreição.