Xingu, que eu amo desde criança

Conheci o Xingu através dos meus tios, padre Eurico e Guilherme, leigo. Vieram para o Xingu em 1934. As cartas que periodicamente enviaram para sua terra natal circulavam entre todos os familiares na Áustria. Falaram da realidade que estavam vivendo no Xingu. Tio Guilherme queria retornar para a Áustria em 1939, mas não foi mais possível. A guerra que estourou naquele ano impedia sua volta à pátria. Permaneceu no Brasil e casou-se em Santa Catarina. Dos seus doze filhos, um se tornou padre e duas filhas, religiosas. Tive o primeiro contato imaginário com o Xingu através desses tios. Padre Eurico falava em seringueiros, ribeirinhos, índios, especialmente os índios Kayapó. Assim meu imaginário de criança já estava povoado com gente e coisas do Xingu.

Nasci na Áustria em 1939. Em 1978 naturalizei-me brasileiro. Hoje me apresento como brasileiro, nascido na Áustria. Minha família era pobre. Éramos seis filhos. Meu pai era professor. O que ganhava foi insuficiente para sustentar a família. Assim todos tínhamos que ajudar. Nas férias escolares eu trabalhava como ajudante de pedreiro. Cheguei a conhecer o mundo do trabalho na construção civil. Fiz muitas amizades. Aqueles operários de trabalho duro me aceitaram muito bem. Estavam felizes com a minha presença nos canteiros de obra, trabalhando com eles. Minha vocação nasceu a partir desta experiência, na Juventude Operária Católica – JOC. Pensava às vezes em fazer medicina ou letras. Mas, depois descobri que a melhor contribuição que poderia dar para o mundo seria como padre. Não sabia, porém, se ia ser jesuíta ou padre secular. Aí, sim, entrou a influência do tio padre Eurico. Ele me dizia: “Se tu queres ser padre por que não vens para a nossa congregação – Missionários do Sangue de Cristo?”. Aceitei a sugestão e fiz minha opção de vida nesta congregação.

 

O surgimento de um missionário

Depois de completar os estudos secundários em junho de 1958, entrei em outubro do mesmo ano no noviciado da congregação no Principado de Liechtenstein.Em 1959, matriculei-me na Universidade Federal de Salzburg. Foram seis anos de estudo na maravilhosa cidade de Mozart. Diplomei-me em filosofia e cursei teologia na mesma Universidade Federal. Pouco antes de me formar, veio a pergunta: Onde vou exercer meu ministério de padre? Meus superiores queriam que eu continuasse os estudos e me diplomasse em Filologia Antiga: Grego e Latim. A congregação precisava de professores em um grande colégio que mantinha na Alemanha. De modo especial necessitava de professor para as aulas de Grego e Latim. Eu gostava – e gosto até hoje – destas línguas. Mas fiquei pensando comigo mesmo: “Meu Deus, vou ser padre para ser professor de Grego e Latim?” Então me veio a inspiração: “Vou ser padre numa terra onde há falta de padres e de recursos.”

Como jovem já me entusiasmava o texto da Primeira Carta de São João 3,16: “Nisto conhecemos que é o amor: Jesus deu a vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos e irmãs”. Empolgado por esta mística e tendo aprendido muito com a JOC que, junto com outros jovens, eu tinha fundado em minha cidade natal, tomei a decisão: Vou para o Brasil. E o Brasil significava o Xingu. Fui falar com o Provincial e disse: “Diante da situação em que se encontra a Prelazia do Xingu, quero ir para lá, quero dedicar minha vida aos povos do Xingu”. Mesmo constatando a necessidade de professor, o provincial concordou e disse: “Precisamos enviar nossos jovens para lugares onde há necessidade de padres, onde falta tudo. Podes ir. No entanto, deves primeiro te submeter a exames médicos para saber se és apto para o clima tropical”. Não tive a menor dúvida acerca de minhas condições de saúde que eram ótimas. Praticava esportes como esquiar e escalar montanhas.

 

Adeus à Áustria

Fui ordenado padre no dia 3 de julho de 1965 na Catedral de Salzburg. Já em 2 de novembro do mesmo ano, me despedi da família. Era o aniversário de meu pai. No dia 4 de novembro embarquei em Hamburgo no navio cargueiro “Emsstein” que me levou ao Brasil. Éramos apenas dois passageiros junto aos marinheiros do cargueiro – Frei Lucas, um franciscano, e eu. No dia 18 de novembro de 1965 o navio aportou em São Luís do Maranhão. Foi às quatro horas da tarde – à hora décima do Evangelho de João. Os dois discípulos de João Batista nunca mais se esqueceriam daquele momento em que pela primeira vez encontraram Jesus que os convidou: “Vinde e vede!”. E eles permaneceram com ele naquele dia. Também eu nunca me esqueço daquela hora e daquele dia em que pela primeira vez finquei meus pés em solo brasileiro: “era a hora décima” (Jo 1,39).

Até o navio descarregar ou carregar carga, hospedei-me por três dias no Convento dos Franciscanos em São Luís. Não falava uma palavra em português. Quando em março de 2016 estive novamente nesse convento para ordenação de meu sucessor como bispo do Xingu, dom João Muniz Alves OFM, encontrei o quarto tal e qual como nos idos de 1965. Quantos anos já haviam passado desde então! Quando dom João foi nomeado para o Xingu ele era guardião daquele mesmo convento que receberaa mim, padre novo, missionário enviado para o Brasil. Mero acaso? Não. “A mão do Senhor veio sobre mim e me conduziu...” (Ez 37,1). Quem imaginaria que, 50 anos depois da minha chegada ao Brasil, o superior do convento em que então me hospedei me sucederia na Prelazia do Xingu!

Cheguei a Belém no dia 25 de novembro, à meia noite. Lá fiquei um mês. Participei de um curso intensivo para os “Voluntários do Papa” vindos dos Estados Unidos. Não gostei muito, pois na mesa e no recreio sempre falaram Inglês. E eu não estava aí para bater papo em Inglês, mas para aprender Português. Assim pedi a Madre Ventura que me permitisse tomar as refeições com as Irmãs. E uma delas, a Irmã Mônica, encarregou-se de ensinar Português para mim. A irmã era muito exigente, graças a Deus. Mandou-me às vezes repetir uma palavra tantas vezes até que a pronúncia estava correta, sem sotaque.

 

Padre andarilho e professor

No dia 21 de dezembro viajei para a Altamira. Foi o primeiro voo na minha vida. Era um DC 3 da companhia aérea Cruzeiro. O pessoal brincava dizendo: DC-3 quer dizer que sobem dezoito e descem três. No dia 25 de dezembro, fui celebrar a missa no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré e fiz minha primeira homilia em Português! Tremendo nas bases, é claro. Também pudera, depois de apenas um mês no Brasil! Me esforcei muito para falar o Português corretamente. Fiquei ainda uns dias em Altamira e, antes do final do ano, retornei a Belém para continuar o curso de Português com a Irmã Mônica e com os americanos (que continuavam falando Inglês nas refeições).

No dia 6 março de 1966, fui em definitivo para Altamira. E o bispo dom Clemente me deu a primeira provisão canônica: mandou-me dar catequese às crianças, dar aulas de religião no colégio e celebrar às seis e meia da manhã a missa na Igrejinha de Nossa Senhora de Nazaré, naquele tempo periferia de Altamira que era uma cidade com uns sete mil habitantes. Na realidade, não tinha muito o que fazer durante a semana, fora alguns encontros de catequese. Sábado e domingo ia então para as colônias. Era um padre andarilho. Logo mais assumi a pastoral no porto de Altamira que era Vitória do Xingu, hoje paróquia e município, e em Souzel, uma paróquia antiga do Baixo Xingu.

No Instituto Maria de Mattias havia falta de professor para o Curso Pedagógico. Assim a diretora me pediu que assumisse as aulas de Filosofia e Psicologia Educacional. Contribuí durante anos, até minha nomeação de bispo em 1980, para a formação de professoras e professores de ensino fundamental. Foi uma época muito gratificante porque tive um contato direto com a juventude de Altamira. E ainda, como não havia professor de língua estrangeira, assumi também as aulas de Inglês.

 

Bispo aos 41 anos

Em 1971, o Papa Paulo VI nomeou o padre Eurico, meu tio, bispo da Prelazia do Xingu. Já tinha 65 anos. Interessante é que ele ainda foi nomeado “bispo titular de Cissa e prelado do Xingu”. Procurei um dia saber onde se encontrava essa diocese e descobri que se tratava de uma ilha já submersa no Mar Tirreno. Assim começamos a brincar com dom Eurico dizendo que para tomar posse de sua diocese titular precisava de um equipamento de mergulho. Sempre achei estranho essa praxe de nomear bispos titulares de alguma diocese que há séculos não mais existe. No final da década de 70, a saúde dele já estava bastante debilitada. Assim ele pediu um bispo coadjutor à Nunciatura. Já pelo fato de eu ser sobrinho de dom Eurico, quem já esperava que fosse eu o seu sucessor. Mas, dom Eurico fez uma pesquisa entre os padres para saber a quem indicariam como seu sucessor. Pelo que soube muito tempo depois, o nome mais apontado foi o meu. Dom Eurico, certamente assustado, não sabia como agir e foi se consultar com dom Alberto Gaudêncio Ramos, arcebispo metropolitano de Belém. Este teria respondido: “Se os padres querem, vamos propor o nome do seu sobrinho.”

No final de outubro de 1980, fui chamado à Nunciatura. O núncio apostólico era dom Carmine Rocco. O secretário me recebeu e convidou-me a aguardar o núncio. Não tardou a aparecer. Entregou-me uma carta e pediu que a lesse. Era a minha nomeação para bispo-coadjutor na Prelazia do Xingu. Fiquei pasmo e o núncio me perguntou: “O que vai fazer agora?”. Respondi: “Volto para Altamira e vou perguntar os colegas o que acham disso”. E ele: “Eu já consultei padres, leigos e irmãs da prelazia. Confiam no senhor. Aceite!”. Apelou ainda para meu “sensus ecclesiae” e o espírito filial ao Santo Padre. Para mim, começou uma grande agonia. Não sabia mais o que dizer. O núncio olhou bem para mim e falou: “Olhe, o senhor pode aceitar tranquilamente porque o povo lhe quer muito bem. As consultas que fizemos mostram isso claramente. Façamos assim: o senhor vai agora para a capela, fique lá rezando por uma hora e depois venha assinar o termo.” Respondi: “Se é assim, que depois de uma hora devo vir assinar de qualquer jeito, assino logo para depois poder rezar sossegadamente”. O núncio ainda acrescentou: “O senhor terá que guardar o sigilo até 12 de novembro, quando a notícia será oficialmente publicada no Vaticano”.

Essa conversa com o núncio se deu no dia 31 de outubro de 1980. Voltei em seguida via Belém para Altamira. Várias pessoas souberam que tinha viajado para a capital federal e se interrogavam: “Padre Erwin foi a Brasília fazer o quê?”. Dona Berenice, a despachante da VASP e amiga de longa data, também se perguntava o que eu tinha ido fazer em Brasília. Naquele tempo não era tão comum eu viajar. Dom Eurico estava em Belém e indagou também: “O que foi fazer em Brasília?”. Como era segredo pontifício, dei-lhe uma resposta evasiva.

 

Aprendendo a ser bispo

Oficialmente fui nomeado no dia 07 de novembro de 1980, mas o anúncio foi feito somente no dia 12 de novembro, dia de São Josafá, bispo e mártir. Meu Jesus amado, quando me lembro daquilo, ainda hoje estou tremendo! Decidi fazer uma reunião com os padres, leigos e leigas, religiosos e religiosas na Betânia, nosso Centro de Formação. Falei para todos: “Olhem, não tenho experiência nenhuma de ser bispo. Peço que vocês me ajudem!” A turma se reuniu em grupo por “categoria”: padres, religiosas, leigas e leigos. A pergunta foi: “O que esperam do novo bispo?” Guardo o resultado até hoje. O que mais me impressionou foi a resposta dos leigos e leigas: “Padre Erwin, queremos que seja um bispo homem de Deus, homem de oração” O segundo pedido deles foi:“Não seja um bispo de gabinete, mas venha nos visitar em nossas comunidades para que possa sentir na pele o que nós sentimos”.

Tentei viver em todos esses 36 anos o que naquele tempo pediram de mim. Em Altamira, sede da Prelazia, encontrei-me ao todo talvez três a quatro meses a cada ano. Todos os anos visitei todas as paróquias por vários dias, até semanas.

 

Nossas prioridades

Fui ordenado em Altamira, no dia 25 de janeiro de 1981, festa da Conversão de São Paulo. Em 1984, a prelazia completou 50 anos. Tinha sido criada por Pio XI no dia 16 de agosto de 1934 pela Bula “Animarum bonum postulat” (O bem das almas requer...). Então, por ocasião do jubileu de ouro, decidimos convocar a primeira grande Assembleia do Povo de Deus em que todas as comunidades se fazem presentes por uma ou um representante. Leigas e leigos reúnem-se para, junto com os padres, religiosas e religiosos e o bispo, avaliar a caminhada pastoral e escolher as diretrizes e prioridades pastorais para o próximo quinquênio. Desde então a cada cinco anos realizamos essa Assembleia do Povo de Deus.

Os leigos e as leigas sentem-se valorizados, porque podem dar suas sugestões. O bispo não está aí para baixar decretos ou escrever cartas pastorais, mas para ouvir e junto com seu povo decidir a caminhada nos anos subsequentes. Estas assembleias tornaram-se características para a Igreja no Xingu. E nas minhas visitas pastorais sempre considerei dever meu de bispo conferir a concretização – ou não – das linhas e prioridades votadas na assembleia: família, juventude, pastoral indigenista, formação, espiritualidade, ecologia. A última assembleia que presidi como bispo do Xingu foi em novembro de 2014. O tema foi “Povo de Deus no Xingu em defesa da vida e da justiça”. Como lema escolhemos o apelo de Nossa Senhora nas Bodas de Caná: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). As prioridades escolhidas na Sétima Assembleia do Povo de Deus foram: Defesa da Vida, Renovação das CEBs, Juventude, Família. Cada assembleia foi um marco histórico de comunhão e participação. Dom João, meu sucessor, pretende continuar nessa mesma direção. Entre uma e outra assembleia, realizou-se sempre uma miniassembleia para avaliar o caminho andado até então e encaminhar já a próxima assembleia.

 

 

Prova de fogo

Que o bispo sinta na própria pele o que sentimos” pediram leigas e leigos do novo bispo. Esse pedido não tardou a assumir contornos bem concretos quando me solidarizei com canavieiros que durante nove meses esperaram em vão o pagamento da safra que haviam entregue à Usina Abraham Lincoln no Km 94 da Transamazônica-Oeste, município de Medicilândia. Após fracassarem todas as negociações, os canavieiros decidiram no Domingo de Pentecostes, 22 de maio de 1983, bloquear a Estrada Transamazônica. Trabalhar o ano inteiro para só receber promessas de pagamento é duro. Havia famílias que até fome passaram.Alguns meses antes, eu havia visitado comunidade por comunidade e vi a aflição daquela gente. No dia 23, pela manhã, fui avisado por telefone do bloqueio da Transamazônica. Viajei imediatamente até o local. O povo me recebeu batendo palmas. Um serviço de alto-falante já estava instalado no acampamento. Peguei o microfone e expliquei que ali me encontrava para oferecer ao povo sofrido da Transamazônica o meu apoio e minha irrestrita solidariedade, na busca de seus direitos. Foi para mim um dever de consciência. Não discuti a legalidade da iniciativa popular. Todo mundo sabia que era ilegal e “inconstitucional” obstruir uma rodovia federal. Mas, todo mundo sabia também que o verdadeiro crime foi cometido por aqueles que até então não atendiam as mais justas reivindicações e prolongavam por tanto tempo o sofrimento de um povo humilde e trabalhador. No dia 1º de junho chegou a Polícia Militar. Armada até o dentes! Os manifestantes ergueram as mãos, mãos entrelaçadas umas às outras. Um PM gritou: “Abaixem as mãos!” – Ninguém atendia a ordem. Uma mulher gritou: “Queremos paz!” Os homens secundaram: “Queremos justiça!” Foi neste momento que os PM jogaram as primeiras granadas “de efeito moral”. Mas, nenhum dos manifestantes se levantou. Nunca me esqueço de seu Severino, que estava ao meu lado segurando minha mão. Até hoje, quando recordo aquela hora, sinto os calos das mãos dele na minha mão. De repente ele me disse: “Bispo, vamos morrer!”. Respondi: “Não, Severino! Não vamos morrer não!”. Eu pensei que iam nos carregar um por um para desobstruir a estrada. Em vez disso veio uma saraivada de bombas de gás lacrimogêneo. Os soldados as arremessaram para o meio do povo: crianças e mulheres gritando, pessoas desmaiando, homens cambaleando de um lado para o outro. Fiquei deitado no meio da estrada, envolvido pela fumaça. Não enxerguei mais nada. Escondi meu rosto no chapéu. O gás estava me sufocando, a pele e os olhos ardendo. Depois de algum tempo a fumaça se dissolveu. Arrastei-me até o tanque com água potável que havia aí por perto, molhei meu lenço e lavei o rosto. Foi quando vi o médico Dr. Hélio desmaiado, já sendo socorrido pelos colonos. Cheguei mais perto querendo ajudar, quando um brutamonte de soldado investiu furiosamente contra mim. Agarrou-me na camisa e me atirou violentamente ao chão. Chutou-me nas costas enquanto o povo gritou desesperadamente: “Larga ele! Larga ele! É nosso bispo!” Não gritaram “É um bispo”, mas “É nossobispo”. Aquele grito foi para mim como uma segunda ordenação episcopal, porque mostrou todo o carinho do povo para com seu pastor. O soldado me torceu o braço para trás e nesta posição me levantou do solo. Perguntei-lhe, porque estava agindo desta maneira. Respondeu apenas: “’Tou cumprindo ordens”. Com o braço torcido para trás, a mão na altura da nuca, fui conduzido uns 100 metros até um ônibus da Transbrasiliana. Olhei para trás e vi o Chico Aguiar, presidente da Associação dos Fornecedores da Cana, se aproximar, de mãos erguidas e empurrado pelo fuzil de um policial. Ficamos presos nós dois, dentro do ônibus. Percebemos logo que naquela hora nos tornávamos “reféns” e que o sentimento do povo estava sendo negociado. O Major falou abertamente para o povo: “Eles não vão ser postos em liberdade tão cedo, se vocês não abrirem a estrada”. Quando, depois de uma hora, o povo abriu a estrada, fomos soltos. Já próximo ao acampamento, diante do povo que novamente estava no meio da estrada, o Major nos atacou verbalmente, chamando-nos de “agitadores” que não merecíamos a confiança e a consideração do povo. Pedi então que nos respeitasse, porque nem o Chico nem eu éramos agitadores. Estava ali por dever de consciência e no cumprimento de minha missão de pastor. E acrescentei: “O que agora aconteceu aqui é uma crueldade sem tamanho, uma enorme covardia contra um povo indefeso e desarmado, sem respeitar nem sequer crianças e mulheres!” Foi o suficiente para o Major dar-me mais uma vez voz de prisão. Mas o povo gritou novamente o “Larga ele! Larga ele! É nosso bispo”. Diante dos gritos do povo o Major não teve outra alternativa do que pôr-me em liberdade. Voltei para o meio do povo que chorando me abraçou.

Naquele mesmo dia o Jornal Nacional já dava notícia de que um bispo foi preso na Transamazônica e no outro dia os jornais comentavam exaustivamente as ocorrências na BR 230 com uma série de fotos das cenas em que o policial me derrubou, e maltratou e depois me conduziu ao ônibus. O Brasil todo veio a saber o que aconteceu na Transamazônica. Assim não deu mais para fazer vista grossa à situação intolerável das famílias. No dia 7 de junho os canavieiros fizeram fila no Banco do Brasil para finalmente receber o pagamento da safra. Comentavam entre si: “Nosso bispo vale ouro, porque se ele não tivesse sido preso e as fotos da prisão publicadas nos jornais, não estaríamos agora aqui para receber nosso dinheiro”.

Nesse episódio experimentei realmente na pele o que esse povo estava sentindo há anos. Foi cruel, mas valeu. Vendo o que os jornais publicaram – eu no chão com o rosto na poeira da estrada, sendo maltratado e depois preso –, sempre fiquei pensando: Há quantos anos esse povo é maltratado, humilhado e pisado e essa realidade desumana nunca é notícia! Agora a detenção e os maus tratos que um bispo sofre vira manchete. Pelo menos surtiu efeito: os colonos receberam o que até então lhes foi negado.

 

Mudanças na Amazônia e resposta pastoral

Quando em 1965 cheguei a Altamira, a cidade tinha apenas uns sete mil habitantes. Hoje o município conta com uma população de aproximadamente 140.000. Também as outras quatro cidades existentes naquele tempo na região do Xingu eram bem pequenas: Gurupá, Porto de Moz, Souzel e São Félix do Xingu. Acho que em toda a prelazia não viviam mais de 30.000 pessoas. Com essa pouca densidade populacional nós, Missionários do Sangue de Cristo, conseguimos dar conta do recado. Não havia falta de padres. Atendemos o povo ao longo dos rios e igarapés através do sistema de desobriga. Padre Frederico, por exemplo, partia de Altamira “e foi para o Alto” como se dizia. Ninguém sabia a data em que ia voltar. Semanas e semanas não se teve notícias dele. Ele tinha sido Vigário Geral dos três bispos, dom Clemente, dom Eurico e o meu também. Faleceu aos 87 anos de idade em 16 de outubro do ano passado “com fama de santidade”. Veio do Tirol, na Áustria, e servia ao Povo de Deus do Xingu durante quase 60 anos. Também eu fiz minhas desobrigas, especialmente no interior das paróquias de Gurupá (já no rio Amazonas) e Porto de Moz (no Baixo Xingu), celebrando a Santa Missa, batizando as crianças, presidindo o sacramento de matrimônio de pessoas que há tempo viviam juntas.

Em 1971 iniciou a construção da Transamazônica. Aí, tudo mudou no Xingu. Praticamente da noite para o dia chegaram milhares de famílias, primeiro do Nordeste, mais tarde do centro e sul do Brasil. Conseguimos acompanhar as famílias “chegantes”. As comunidades fundadas naquela época existem até hoje. Mas começamos a sentir a falta de padres. Ficamos sobrecarregados e às vezes exaustos. Graças a Deus os Padres Xaverianos e depois padres da Igreja Irmã de Porto Alegre vieram em socorro da Prelazia do Xingu.

Naquele tempo realizou-se, de 24 a 30 de maio de 1972, em Santarém, o Encontro Inter-regional dos Bispos da Amazônia. Considero este encontro como marco decisivo para a evangelização na Amazônia nas décadas subsequentes até os dias de hoje. As palavras do Papa Paulo VI “Cristo aponta para a Amazônia” inspiraram as “Linhas prioritárias da Pastoral da Amazônia”. A partir do Concílio Vaticano II, da Conferência do Episcopado latino-americano em Medellín (1968) e “recolhendo a experiência e os anseios das bases” a Igreja da Amazônia escolhe duas diretrizes básicas: “(1) a Encarnação na realidade, pelo conhecimento e pela convivência com o povo, na simplicidade, e (2) a Evangelização libertadora”, que orientam a definição das quatro prioridades da Pastoral da Amazônia:

1- A formação de agentes de pastoral que “deve considerar, em primeiro plano, os elementos locais, os autóctones. Ninguém melhor do que o homem do próprio meio tem condições para exercer a liderança dentro da comunidade”.

2- As comunidades cristãs de base como “primeiro e fundamental núcleo Eclesial”.

3- A pastoral indígena: O CIMI, há pouco criado em Brasília, é considerado “órgão providencial (...) a serviço do índio e das missões indígenas”.

4- Estradas e outras frentes pioneiras: “Nesta hora em que a Transamazônica e outras estradas estão empreendendo a integração e o desenvolvimento da vastíssima região em conexão com as hidrovias, novos problemas solicitam nossa atenção e nossas providências”.

No II Encontro Interregional de Pastoral em Manaus (1974) foi acrescentada uma 5ª prioridade: a Juventude.

O documento de Santarém foi uma graça toda especial que Deus concedeu à Igreja na Amazônia. A partir daí comunidades começaram a pipocar em toda região, sendo sinal de novos tempos para a Igreja. A agenda dos padres tornou-se agenda de visitas às comunidades, que ocuparam o maior tempo do ano. Leigas e leigos recebiam em “Semanas Catequéticas” a formação necessária para assumirem a coordenação da comunidade, o culto dominical, a catequese, a preparação para os sacramentos. Vivíamos uma primavera em toda a Amazônia, um verdadeiro Pentecostes. A animação nas comunidades foi fantástica. De início foram mais os homens que assumiram responsabilidades. Muitas mulheres pensaram ainda que a coordenação de uma comunidade cabia aos homens. Mas, essa visão, graças a Deus, caducou rapidamente e as mulheres assumiram (inclusive com grande apoio dos homens) cada vez mais funções e ministérios na vida da comunidade. Hoje a grande maioria das comunidades é dirigida por mulheres.

Na verdade, surgiu um novo jeito de ser Igreja, e também um novo jeito de ser padre. Como bispo tornei-me peão do trecho, porque a agenda ficou recheada de visitas e viagens pastorais até os confins da Prelazia. Comecei a viver o São Paulo escreveu aos Coríntios: “Não temos morada certa” (1 Cor 4,11). Digo até com um certo orgulho, que não existe ninguém no Xingu que conheça as regiões desta imensa Prelazia como eu as conheço. Fui até as nascentes dos rios e igarapés, até os fundos das estradas vicinais, até as comunidades mais distantes, onde se pensa que o mundo termina. Tinha gente que dizia brincando: “Onde Judas perdeu as meias, pois as botas perdeu já há muito tempo!”

 

As diversas dimensões da comunidade

Há comunidades que surgiram a partir da reza do terço. Uma senhora conhecia os mistérios e sabia “puxar o terço”. Logo mais, a comunidade se deu conta da importância da dimensão samaritana. Eram pessoas pobres que descobriam mil e uma forma de se apoiarem e ajudarem mutuamente. Mas não ficou apenas na troca de favores e na vontade de socorrer a quem estava passando necessidade. Nas reuniões, de repente alguém perguntou: “Por que estamos nessa? Será que Deus quer uma vida assim de tanto sofrimento? Que vamos fazer? Nós não temos direitos?” Começou-se nos encontros a acolher a Palavra de Deus e a meditar a Sagrada Escritura. O livro do Êxodo muito ajudava nessa reflexão. Em particular o que Deus mesmo falou a seu povo na escravidão: “Eu vi, eu vi a miséria de meu povo. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores e tomei conhecimento de suas angústias. Por isso, desci para libertá-los das mãos dos egípcios e fazê-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).

Também a dimensão profética assumiu contornos reais. Com essa dimensão vieram as primeiras perseguições. De repente morreu gente de “morte matada”. Falava-se muito das ferramentas para sair da situação de pobreza, de miséria. Uma delas foi o sindicato dos trabalhadores rurais. Uns entraram na política, mas em muitos casos não se deram bem. Ou pior, alguns, uma vez ocupando uma cadeira na Câmara Municipal ou na Assembleia Legislativa do Estado, ou até no Congresso Nacional, se esqueceram da sua origem e se deixaram cooptar e corromper. Essa é uma das mais tristes experiências que fiz e me causa arrepios e náuseas até hoje.

 

No entanto, uma outra dimensão que é essencial, fundamental para toda a comunidade: a dimensão orante, celebrativa, contemplativa. Minha experiência é que quando as comunidades deixam de orar e celebrar o culto, em pouco tempo desaparecem. Onde o culto dominical, as celebrações, a oração são descuidados a comunidade, mesmo sendo forte em sua organização, morre por inanição. É sempre a mística do Evangelho que sustenta a pessoa e a comunidade.

 

Servo sofredor

Assumi como lema episcopal o primeiro versículo da Carta aos Romanos – Servo de Cristo Jesus. Mas, é preciso levar em conta o versículo todo: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo; separado para o Evangelho de Deus” (Rom 1,1). Sou “servo”, e não “dono”. Sou chamado para exercer um ministério, um serviço. Não estou acima do povo. Sou servo de Cristo Jesus no meio do Povo de Deus. Fui escolhido, separado para proclamar o Evangelho de Deus, na perspectiva da Carta aos Hebreus – separado não para buscar vantagens pessoais, mas “constituído em favor das pessoas em suas relações com Deus” (Hbr 5,1).

Servo de Cristo Jesus não se é “para o próprio gasto”. Deus não nos chama para nos fecharmos em nós mesmos. Ele nos chama e ao mesmo tempo nos envia. O servo de Cristo Jesus também tem algo a ver com o servo que o profeta Isaías apresenta em seus quatro cânticos do servo sofredor (Is 42,1-9; Is 49,1-6; Is 50,4-11; Is 52,13-53,12). São palavras comoventes que lemos. Revelam-nos realmente o que significa ser “servo”:  “Eu, o Senhor, te chamei para o serviço da justiça, tomei-te pela mão” (Is 42,6). Mas esse chamado implica também muitas vezes em ser rejeitado e desprezado como aconteceu com Jesus: “Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores” (Is 53,3).

A situação no Xingu, quando fui sagrado bispo já não era nada fácil. Ao longo dos anos tornou-se cada vez mais complexa e conflitiva. Que pastor não sofre em meio a essa situação! O sofrimento faz parte da vida em nosso dia a dia. Servo de Cristo Jesus é solidarizar-se com o povo, carregar suas dores, doar a vida: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si” (Is 53,4). “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro...” (Is 53,7).

 

Experiência da dor                                                

O “acidente” do 16 de outubro de 1987 que até hoje não foi esclarecido me marcou profundamente.

Havia um acampamento de colonos em Brasil Novo. Famílias, há anos castigadas pela irresponsabilidade dos órgãos governamentais, ocuparam a área em frente ao prédio do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA), reivindicando o conserto das estradas vicinais da Rodovia Transamazônica. Na estação de chuvas, a mata para muitos virava prisão. Famílias e comunidades encontraram-se isoladas de tudo e de todos. Qualquer enfermidade podia ter um desfecho fatal, porque foi impossível sair a procura de remédios, de assistência médica ou hospitalar. Há casos, em que pessoas doentes foram carregadas por mais de 30 km em redes penduradas em um pau roliço sobre os ombros já esfolados de dois homens. Mortos foram enterrados nos quintais, porque não havia como levar os corpos para o cemitério. No mês de outubro, o verão tropical já está chegando ao fim. Mulheres, homens e crianças juntaram-se mais uma vez em busca de solução. Apelaram ao Governo, para que finalmente tomasse alguma medida. Dia 15 de outubro fui até o Brasil Novo para encontrar-me com os acampados. Brasil Novo fica a 46 quilômetros de Altamira. Os colonos pediram-me que voltasse no dia seguinte para celebrar a Eucaristia. Aceitei com muito prazer. Eram todos membros de comunidades ao longo da Transamazônica. Comigo viajaram o Padre Salvatore Deiana (“Tore”), Padre Mateus Antonello e Sônia Aparecida Feiteiro, naquele tempo secretária da CPT.

Perto do Km 23 da Transamazônica (Altamira-Itaituba, BR 230) há uma descida e logo depois uma subida. Vi no topo da ladeira um carro de cor clara. Pensei que estivesse descendo em nosso rumo e por isso fechei o vidro para defender-nos da poeira. O carro não desceu. Mais tarde soube que era o carro do delegado de Brasil Novo, assassinado alguns meses mais tarde na sua própria casa, assistindo televisão. Em lugar desse carro, antes de alcançarmos o ponto mais alto, veio uma caminhoneta. Era impossível desviar em tempo. O veículo de carga veio na contramão e nos abalroou. O choque foi terrível. Tudo em uma fração de segundo. Fraturei meu rosto, perdi os dentes, quebrei costelas. Mas não perdi a consciência. Vi dois homens descer da caminhoneta. Fugiram! O sangue me saía pela boca e pelo nariz. Senti falta de ar. Olhei para o meu lado, bati no ombro do padre e chamei seu nome: "Tore, Tore, Tore!" Ele não respondia mais, estava morto.

Uma Kombi que vinha atrás parou e os passageiros nos socorreram. Tiraram-me do gol e me levaram ao Hospital Central em Altamira, para os primeiros socorros. No outro dia um teco-teco do exército me transportou para Belém. Fui internado no Hospital Guadalupe onde passei seis semanas. Sofri duas cirurgias. Fiquei 33 dias com o queixo amarrado, só podendo alimentar-me através de um canudo. Naquele tempo, aprendi concretamente o que significa ser o Servo Sofredor. Eu não tinha experiência de sofrimento. Agora fiquei noites sem dormir, confinado a um leito de hospital, sentindo dores e mais dores. Dor no rosto é difícil de suportar. Não sabia o que fazer para aliviar a dor. Nestas noites aparentemente intermináveis me dei conta de que a narrativa central do Evangelho é realmente a paixão, morte e ressurreição do Senhor. Rezei muito. Descobri ainda mais o valor do terço, já que não podia rezar a Liturgia das Horas.

 

Acidente ou tentativa de assassinato?

Quando finalmente retornei a Altamira, foi aquela festa. O povo me recebeu com muita alegria. Mas, aos poucos a trama do “acidente” começou a ser desvendada para mim. E o que antes não sabia, cheguei a saber. Contaram-me que quando o padre Salvatore foi colocado no necrotério muita gente veio ver o corpo. Chegou um homem desconhecido, de chapéu de aba larga, e perguntou simplesmente: “Posso olhar o corpo?”. O corpo ainda estava coberto com um lençol. Ele retirou o lençol para ver o rosto do falecido e disse: “Morreu o errado!”. Soube mais tarde que um homem com as mesmas características já queria entrar no acampamento e foi barrado por Dionísio, encarregado de cuidar da “vigilância”. Quando ainda estava no hospital em Belém, veio uma jornalista me visitar e disse: “O senhor não pense que sofreu um acidente! Tenho certeza de que não foi!” Isso me assustou. E mais ainda me assustei, quando depois de dois meses, já de volta a Altamira, outra jornalista me disse exatamente a mesma coisa: “Foi acidente planejado”. Aos poucos o macabro mosaico se completou. Surpreendente foi também a rapidez da polícia em chegar ao lugar do sinistro, a 23 quilômetros de Altamira, numa estrada péssima. Vinte minutos depois do acidente a polícia já se encontrava lá para registrar a ocorrência. Nunca houve inquérito. Como os policiais conseguiram chegar em tão pouco tempo? Já sabiam do acidente antes de acontecer?

O acidente e a morte do Padre Tore se situam no contexto mais amplo da campanha ante-indígena durante Assembleia Nacional Constituinte. Em agosto de 1987, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), cujo presidente eu era, foi acusado de todo tipo de crime de lesa-pátria, simplesmente por defendermos a dignidade dos povos indígenas e pleitearmos a inscrição de seus direitos na Carta Magna do Brasil. Durante cinco dias, o jornal O Estado de São Paulo publicou matérias caluniosas e difamações explícitas, documentos falsificados ou inexistentes contra o CIMI, querendo com essa iniciativa colocar em total descrédito toda a nossa luta por parâmetros mais favoráveis aos povos indígenas na Constituição Federal. Queriam, a todo custo, enfraquecer a presença do CIMI nas articulações da Assembleia Nacional Constituinte. A criminalização da entidade teve por consequência a instauração de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que ouviu os representantes do jornal que comandou a campanha e examinou os documentos forjados. Também eu aguardava o chamado para depor diante da Comissão. Os advogados em Brasília insistiram que estivesse de prontidão pois a qualquer momento poderia ser chamado. Contei com irrestrito apoio de Dom Luciano Mendes de Almeida, então presidente da CNBB, e Márcio Thomaz Bastos, presidente da OAB. Munido já de um dossiê completo que comprovava como infundadas e caluniosas todas as acusações, estava convicto de que iria desmascarar a tramoia. Mas, em vez de viajar a Brasília, fui vítima de um misterioso acidente automobilístico que ceifou a vida de um jovem Padre.

Tive alta do hospital, mas a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito não me chamou para depor como era previsto. Mesmo assim, o parecer final do relator da comissão concluiu pela total falsidade dos documentos mencionados pelo jornal denunciante, e propôs a remessa do material e do relatório ao Ministério Público, dadas as evidências de falsidade ideológica. Mesmo com muitas dores sofridas para completar “o que falta às tribulações de Cristo” (Col 1,24) e lágrimas vertidas pela morte de um Padre entusiasmado pela Amazônia, festejamos juntos com os povos indígenas a vitória de serem inscritos os seus direitos na Constituição Federal. No dia 1º de junho de 1988, o plenário da Assembleia Nacional Constituinte aprovou a redação do capítulo específico sobre os direitos indígenas. No segundo e último turno de votação plenária, na sessão de 30 de agosto de 1988, de 453 votos, o capítulo sobre os índios obteve 437 votos favoráveis, 8 abstenções e 8 votos contrários.

 

Mártires da caminhada

Há muitos que tombaram pelo caminho. Já citei o Padre Tore. Entre tantos outros quero ainda lembrar o Irmão Humberto, o Dema e a irmã Dorothy.

Irmão Humberto, irmão da minha congregação, foi assassinado em 10 de outubro de 1995 dentro da Casa da Prelazia. Alguém bateu a campainha e ele abriu a porta. Poucos minutos depois foi fulminado com vários tiros à queima-roupa. Até hoje existe um buraco na parede na sala de entrada da casa feito por um balaço. Foi um irmão leigo que trabalhou em várias frentes da Prelazia, sempre prestativo, competente e generoso para com os pobres. Nunca conseguimos apurar se os bandidos na realidade queriam matar o Padre Frederico ou o Padre Sávio que muito se empenhou para elucidar os crimes de emasculação de que, entre 1989 e 1993, uns 20 meninos foram vítimas. No dia fatídico encontrava-me em Tucumã, no Alto Xingu. Meu amigo Pereira, piloto de avião, levou-me de teco-teco para Altamira para poder celebrar as exéquias. Na Missa de Corpo Presente na Catedral vi gente que antes nunca havia visto na Igreja. Até evangélicos participaram, pois o irmão quando ajudou alguém nunca perguntou pela confissão religiosa.

Dema (Ademir Alfeu Federicci) foi morto em 25 de agosto de 2001. Na madrugada daquele dia alguém entrou em sua casa e o executou à queima-roupa. Dema caiu aos pés de sua mulher e balbuciou ainda: “Maria, cuide de nossos filhos”.   Conheci Dema de visitas pastorais às comunidades da Transamazônica, de reuniões e assembleias. Lembro-me com prazer de ter visitado seu lar. Conheço sua esposa, Maria da Penha, e seus filhos. Conheci seu pai, conheço sua mãe. Encontrei-me com Dema pela última vez em Altamira, no Instituto Maria de Mattias, por ocasião de uma assembleia da juventude. Dema havia assumido uma posição decidida de defender o meio-ambiente pois deu-se conta de que a devastação inescrupulosa da região do Xingu terá consequências calamitosas para as futuras gerações. Ademir Alfeu Federicci veio do Espírito Santo para a Amazônia. Hoje ele é venerado como herói da Transamazônica, como exemplo de firmeza e coragem na defesa da dignidade humana e do meio-ambiente no vale do Xingu e na Transamazônica. E Maria da Penha? A mulher que Dema tanto amou? A mãe de seus filhos? A esposa a quem mortalmente ferido dirigiu seu derradeiro olhar? Maria da Penha continua viva, engajada, corajosa. Quando eu soube da morte de Dema, imediatamente pensei nela. Comparei-a com outra “Maria da Penha”, aquela do Calvário, firme, de pé junto à cruz, aferrada em sua fé.

Irmã Dorothy, ao lado de Chico Mendes, é seguramente a mártir mais conhecida da Amazônia. Veio para o Xingu em 1982. Lembro-me muito bem quando chegou e me pediu que lhe indicasse uma região em que podia trabalhar entre os pobres mais pobres. Fez a opção pelos povos da Amazônia, de modo especial pelos pobres e excluídos. Não admitia nunca que uma pessoa pelo fato de ser pobre pudesse ser prejudicada e desrespeitada em sua dignidade e em seus direitos. Rezou com a gente humilde e participou de reuniões do povo simples ajudando-o em sua organização e na reivindicação dos direitos que lhe foram negados. Advertida de que estava correndo risco de vida, ela simplesmente sorria. Não acreditava. Foi morta em Anapu, na Transamazônica, às 7:30 da manhã do dia 12 de fevereiro de 2005, por um pistoleiro a mando de fazendeiros da região. Pouco antes de ser assassinada, Irmã Dorothy, ao ser perguntado por seu algoz se estava armada, abriu a sacola e mostrou-lhe a Bíblia Sagrada. Ele mesmo confessou que a Irmã citou uns versículos das Bem-aventuranças: Bem-aventurados os mansos, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça, os que promovem a paz (cfr. Mt 5,1-10).

 

Sob proteção policial

Em 29 de junho de 2006, às 22 horas, apareceu na Casa da Prelazia do Xingu o comandante do 16º Batalhão da Polícia Militar (Xingu), tenente-coronel Paulo Roberto com dois soldados fardados. Comunicou-me que, a partir daquele momento, eu estaria sob proteção policial e me pediu que aceitasse a medida que teria se tornado necessária devido a várias ameaças que eu vinha sofrendo. Insistiu que não me opusesse. Explicou que cabe ao Estado a responsabilidade de zelar pela integridade física do bispo do Xingu, já que fui enquadrado no programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República.

As ameaças tiveram vários motivos:

O primeiro foi a minha posição sobre o assassinato de Irmã Dorothy Mae Stang. Não me contentei com a prisão dos dois executores do crime e de três acusados de serem os mandantes. A morte da Irmã foi programada por um consórcio, até os mínimos detalhes. Com essa minha convicção fui considerado uma ameaça aos integrantes daquele consórcio do crime.

O segundo motivo foi meu posicionamento em relação a hidrelétrica Belo Monte. Alguns empresários e políticos declararam guerra contra o bispo do Xingu. Gritaram do alto de seus palanques: “Vamos pra guerra!“ e prometeram “descer o cacete“. Deixaram-se influir pelo artigo “Reagir é a palavra de ordem” publicado em “O LIBERAL” de 5 de junho de 2006 em que o economista Armando Soares recomendou a meu respeito: “Ensinava o pai de Cícero, o grande tribuno romano, que homens iníquos têm que ser eliminados da sociedade, sob pena de contaminarem toda a sociedade”.

O terceiro motivo se relacionou à minha defesa intransigente dos povos indígenas que sempre contrariou interesses e ambições de quem nunca concordou com a demarcação de áreas indígenas.

O quarto motivo foi a denúncia que fiz de abuso sexual de meninas do Instituto Maria de Mattias e de uma outra escola de Altamira. Entrei em contato a Secretaria de Estado de Segurança Pública e denunciei os crimes, prestando depoimento à Delegada Socorro que fora enviada de Belém para ouvir o bispo do Xingu. A reação de quem foi acusado não tardou. Ato contínuo sofri ameaças de morte.

Continuo até hoje sob proteção policial. São quatro PMs que assumem a vigilância, revezando-se dois a dois. Acompanham-me onde quer que eu esteja, nas celebrações litúrgicas, visitas às comunidades, encontros e palestras. Têm quarto na Casa da Prelazia e tomam as refeições à nossa mesa.

 

A importância do laicato

As comunidades não funcionam sem o engajamento decidido de leigas e leigos. Só existe realmente comunidade quando leigas e leigos assumem a sua responsabilidade batismal e crismal. O padre e o bispo visitam as comunidades, celebram a Eucaristia e ministram os sacramentos. Fazem reuniões com as lideranças, instruem, informam e animam a comunidade. Mas o dia a dia da comunidade depende dos leigos.

Lembro-me da minha primeira visita “ad limina” em 1985 quando o papa João Paulo II queria saber o número de padres e religiosas/os na Prelazia. Ficou assustado com minha resposta e perguntou: “Com faz com tão pouca gente?”. Respondi: “Existem também leigas e leigos comprometidos nas comunidades”. Ele então retrucou “Comunidades de base?” Corrigi o Papa dizendo: “Comunidades eclesiais de base, pois é aí que a Igreja vive!”

O que seria a Igreja do Xingu sem leigos e leigas comprometidos? Afirmo o mesmo em relação a toda a Amazônia. No Xingu há atualmente em torno de oitocentas comunidades. Para os leigos, o empenho em favor de sua comunidade é um grande desafio. São pais e mães de família. Exercem uma profissão. São professoras, agricultores, funcionários, donas de casa. Aceitam responsabilidades por causa de sua fé e de seu amor à Igreja que se concretiza “pé no chão” na sua comunidade. Não pedem remuneração. São voluntários. Sempre admirei toda essa generosa dedicação. Participam de reuniões, encontros, retiros (junto com os padres e religiosas/os). Muitas vezes com grande sacrifício!

 

Organização sindical e política partidária

A Igreja foi muitas vezes o ponto de partida para a formação de sindicatos de trabalhadores e diversas associações de mulheres e homens. As lideranças das comunidades sempre se perguntavam quais ferramentas poderiam ajudar na luta pela melhoria de vida – reivindicar escola, posto de saúde, estradas – e refletiam sobre isso nas reuniões das comunidades. E os dirigentes e membros das diversas organizações e entidades eram e são animadores, dirigentes de comunidades. Vários deles continuam participando da vida das comunidades.

 

Muito além do Xingu

Em julho de 1983, fui eleito presidente do CIMI.

Em junho daquele ano, depois do episódio na Transamazônica que culminou com minha detenção pela Polícia Militar, visitei junto com Dom Tomás Balduíno – piloto de teco-teco – várias aldeias indígenas Kayapó no Alto Xingu. Ele retornou depois a Goiás e numa reunião do CIMI em que se preparou a assembleia eletiva da entidade ele teria falado: “Há no Xingu um bispo novo. É corajoso. Vamos apostar nele.”

No mês de julho estávamos de retiro na Prelazia. O cardeal dom Aloísio Lorscheider veio até o Xingu orientar esses dias de oração e meditação. Terminado o retiro recebi um telefonema perguntando se eu estava disposto a ser candidato à presidência do CIMI. Respondi: “Pelo amor de Deus, sou bispo novo e não tenho preparo para assumir uma responsabilidade tão grande, em nível nacional”. Dom Aloísio ainda se encontrava em Altamira. Perguntei assim ao cardeal o que devia fazer. Ele reagiu imediatamente e disse: “Você tem que assumir, pois se trata de um serviço à Igreja e, em nome da Igreja, aos povos indígenas”. Com o aval de dom Aloísio, fiquei mais tranquilo e aceitei. Fui eleito e durante oito anos, de 1983 a 1991 exerci o cargo, sempre em sintonia com a CNBB. A Assembleia Nacional Constituinte de 1987 foi a hora propícia para lutarmos pela inclusão dos direitos indígenas na Carta Magna do Brasil. Mantivemos contatos com deputados e senadores, tudo para convencer os constituintes que os índios precisavam ser considerados cidadãos adultos, donos de sua história, brasileiros e brasileiras com todos os direitos respeitados, direitos a suas terras ancestrais, às suas línguas, expressões culturais e tradições, às suas organizações. Nosso empenho em favor destes povos, é claro, não agradou a todos, especialmente não recebeu aplausos dos que queriam ocupar as terras indígenas e explorar as riquezas naturais nelas existentes.

Entre tantos encontros lembro-me de um que parece até misterioso. Não consigo explicar. Nunca acreditei em mero “acaso“. Recordo antes a expressão do profeta Ezequiel: “A mão do Senhor veio sobre mim e me conduziu...“ (Ez 37,1). A figura central desta história é Jarbas Gonçalves Passarinho, ex-governador do Pará, ex-senador, ex-ministro. Jarbas se considerou amigo de meu tio. Eu mesmo não me senti tão amigo de quem teve um papel importante no AI-5. No dia do falecimento de sua esposa, o prefeito de Altamira veio pedir que celebrasse uma missa “em sufrágio da alma de Dona Ruth”. Foi numa terça-feira à noite na Catedral do Xingu. Por uma “coincidência“ daquelas que chamo de “mão de Deus“, o Evangelho do dia foi Lucas 18,15-17: “Deixai as criancinhas virem a mim e não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus“. Na breve homilia lembrei a finada e seu empenho em favor das crianças. Dias depois tive que viajar a Brasília para uma reunião do CIMI. Quando em Belém embarquei no avião da VASP, reconheci numa das primeiras poltronas o Senador Jarbas Gonçalves Passarinho. Fui mais para trás, sentei e comecei a rezar o meu breviário. De repente me deu um estalo. Senti até vergonha por ter passado pelo Senador sem cumprimentá-lo e apresentar minhas condolências. Levantei e fui para frente. “Senador!“ – “Oh, Dom Erwin!“ – “Venho apresentar-lhe minhas mais sentidas condolências pelo falecimento de sua esposa!“. O senador se levanta. É uma cena um tanto estranha no meio do corredor do avião. Abraço Jarbas Passarinho e ele soluça: “V. Excia. não pode imaginar a lacuna que Dona Ruth deixou em minha vida!“ Digo qualquer coisa como “Está com Deus!“ e “Deus há de confortá-lo.“ Aí, ele retoma a palavra: “Dom Erwin, sou-lhe muito grato. Fiquei emocionado ao saber como V. Excia. lembrou minha falecida esposa na missa que celebrou na catedral de Altamira.” Um pouco desajeitado retruquei algo como “É o que tinha que ser dito até por questão de justiça.“ Despedi-me e voltei ao meu lugar lá atrás. No saguão do aeroporto de Brasília só o vi de longe, cercado de parentes e amigos.

Fui recebido em Brasília pelos assessores jurídicos do CIMI. Entrei no carro e um deles logo me fulminou: “O Sr. conhece o Jarbas Passarinho?“ – “Sim, conheço, mas não tão de perto. Coitado, perdeu a mulher!“. – “Mas ele o conhece?“ – “Sem dúvida! Chegamos agora no mesmo avião em Brasília. Falei com ele enquanto cruzávamos os céus do Brasil, dando-lhe os pêsames.“ – “O Sr. se importaria de marcar logo mais um encontro com ele?“ – “Ora, o homem está de luto e certamente foi para o seu apartamento. Não quero importuná-lo agora. Creio que seria falta de educação!“ – “E se a questão for de vida ou morte?“ – “Mas será que de repente existe algo tão grave?“

O CIMI até então investiu todo o seu esforço em conscientizar e sensibilizar para a causa indígena os constituintes situados mais à esquerda. O raciocínio dos advogados e do então secretário do CIMI Antônio Brand foi que urge ampliar a nossa ação conscientizadora para além dos já aliados desta causa. Só os votos da esquerda brasileira não seriam suficientes para garantir a inscrição dos direitos indígenas na Constituição sem todo esse ranço colonialista de querer “incorporar os silvícolas à comunhão nacional” como pretendiam as Constituições anteriores.

A ’peça chave’ para ampliar o raio de nossos colaboradores na Assembleia Nacional Constituinte é o Senador pelo Pará Jarbas Passarinho. Se conquistarmos o Jarbas para a causa que defendemos, a vitória é segura“ argumentaram Antônio Brand e os advogados do CIMI. – “Mas, eu nem sequer tenho o número do telefone do senador“ arrisquei. “Não se preocupe! Temos tanto o número do gabinete quanto do apartamento“. Chegamos no Secretariado Nacional do CIMI, Edifício Venâncio III. Telefonei! “Senador! É Dom Erwin!“ – “Que prazer! Fizemos boa viagem, não foi!“ – “Graças a Deus! O Senador me desculpe, mas, se não for muito inoportuno, existiria uma possibilidade de encontrá-lo ainda hoje ou então amanhã cedo? Queria falar com o Senador sobre os direitos indígenas na nova Constituição.“ – “V. Excia. é quem manda! Se quiser vir logo, estou no meu gabinete. Recebo-o com muito prazer!“ – “Pois então, Senador, já estou indo. Posso levar dois assessores jurídicos do CIMI?“ – “Sem dúvida! Pode trazê-los!“

Já era noite em Brasília. Chegamos ao gabinete do Senador Jarbas Passarinho. Uma secretária nos serviu um cafezinho e o Senador, apesar do luto, estava visivelmente descontraído. A gentileza e a grande erudição sempre constituíram sua logomarca. Agora é minha vez de falar! Pedi as luzes do Espírito Santo, respirei fundo e comecei: “O Senador é acreano de nascimento e paraense de coração. Acre e Pará são as duas extremidades que abraçam a Amazônia. O senhor como Senador Constituinte não representa apenas o Pará, mas é uma referência para a Amazônia toda. Na Amazônia vive o maior número dos povos indígenas do Brasil. Eles não têm representante no Congresso. Peço que o senhor assuma essa função, defendendo os seus interesses, sua dignidade, seus direitos que precisam ser inscritos na nova Constituição.“ O Senador ouviu muito atento. Senti que minha exposição lhe era simpática. “Nos detalhes, Senador, como se deve encaminhar essa causa, os meus assessores jurídicos conhecem as filigranas da questão do ponto de vista jurídico!“ – Terminei e senti-me aliviado. Não me recordo mais, quanto tempo durou a conversa do Senador com os advogados do CIMI. Dias depois o Senador Jarbas Gonçalves Passarinho fez um inflamado discurso em favor dos povos indígenas. E o Capítulo VIII - DOS ÍNDIOS (Artigos 231 e 232). da Constituição da República Federativa do Brasil é prova de que surtiu o efeito almejado. Graças a Deus!

Após dois mandatos, eu não podia mais ser reeleito. Na Assembleia da CNBB, em 1995, me elegeram responsável pela Linha 2 – Dimensão Missionária. Nesta função fui reeleito em 1999 para mais quatro anos.Em 2006 faleceu o presidente do CIMI,dom Franco Masserdotti. Pedalava sua bicicleta quando um carro o derrubou. Morreu na hora. Representantes do CIMI vieram então falar comigo para eu assumir interinamente a presidência do CIMI, pelo menos como mandato tampão. Aceitei. Em 2007, houve eleição e fui novamente eleito. Em 2011, fui reeleito para mais um período, até 2015. Na assembleia daquele ano finalmente foi eleito meu grande amigo e irmão dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho.

 

A Comissão Episcopal para a Amazônia e a Rede Pan-amazônica

Em 1997 participei como delegado da CNBB do Sínodo das Américas no Vaticano. Fui delegado também nas Conferências Episcopais Latino-americanas de Santo Domingo (1992) e de Aparecida (2007). Agradeço a Deus ter podido participar desses eventos tão importantes para a Igreja na América Latina. Procurei dar minha contribuição a partir da minha experiência na Amazônia. No final dos anos noventa, procurei nas assembleias da CNBB destacar a situação da Amazônia com os seus grandes desafios. A minha reflexão “Missionariedade e Solidariedade entre as Igrejas no Brasil” durante a 36ª Assembleia Geral da CNBB de 22 de abril a 1º de maio de 1998 surtiu como efeito a criação da Comissão Episcopal para a Amazônia. O objetivo dessa comissão é sensibilizar toda a Igreja no Brasil para a realidade das dioceses eprelazias na Amazônia. Dom Jaime Chemello – que tinha sido presidente da CNBB – ficou como presidente dessa comissão e a presidência da CNBB me convocou para fazer parte como secretário.

Ao final do mandato de dom Jaime como presidente dessa comissão, dom Damasceno, então presidente da CNBB, me telefonou e disse: “Dom Cláudio Hummes já retornou de Roma. O que você acha se o convidarmos para presidir a Comissão Episcopal para Amazônia?”. Fiquei entusiasmado e respondi que seria “um grande achado”. Dom Damasceno falou com dom Cláudio e este demonstrou uma imensa alegria em poder servir à Amazônia. E está com o mesmo entusiasmo até hoje, graças a Deus. Primeiro fiquei um pouco desajeitado na minha função de “secretário do Cardeal”, mas dom Cláudio “não tem bondade” como diria o povo no interior da Amazônia querendo com isso dizer: é um homem muito culto, mas ao mesmo tempo “muito dado”, avesso a tratamentos cerimoniosos. Afinal mesmo sendo cardeal não deixou de ser franciscano. Em todo caso, a sintonia entre nós é perfeita. Mas que seria da comissão sem a nossa assessora Irmã Irene, chamada carinhosamente de “princesa da Amazônia”? E agora também a Irmã Osnilda, jornalista e responsável pela comunicação escrita, falada e televisionada?

Quando a Rede Eclesial Panamazônica – REPAM foi implantada no Brasil, dom Cláudio me convidou a assumir a presidência da entidade no âmbito de nosso país. Na REPAM contamos hoje com um grupo de pessoas muito competentes e engajadas. Conhecem muito bem a Amazônia. Atualmente, pelo Brasil afora, se encarregam de promover seminários sobre a Encíclica Laudato Sí.

 

Laudato Sì e Amazônia

A Laudato Sì é um marco histórico na Igreja. O papa Francisco assumiu com coragem a questão da ecologia que muitos consideraram assunto exclusivo de movimentos ecologistas e de partidos verdes. Cada vez que leio a encíclica me dou conta da ousadia e competência com que o papa trata deste tema de tanta importância para a própria sobrevivência do gênero humano. Realmente o papa acertou na mosca! Deixou-se assessorar por muitos cientistas e pessoas que têm trabalhado esta questão.

No n. 236 o Papa Francisco fala da Eucaristia como “fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente” que nos leva “a ser guardiões da criação inteira”. Ser guardião implica em assumir a responsabilidade de zelar pela criação e cuidar do meio ambiente, inclusive com vista às futuras gerações. O Papa Francisco rejeita categoricamente a interpretação de Gênesis 1,28 numa perspectiva de dominação implacável do ser humano sobre a criação, de exploração desenfreada e inescrupulosa dos recursos naturais como se nós fossemos a última geração.

A referência ao Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis realça a harmonia que deve existir entre o ser humano e os outros seres criados que São Francisco chama de irmãos e irmãs. Essa visão de harmonia coincide com o entendimento que os povos indígenas andinos conservam desde tempos imemoriais quando falam de Sumak Kawsay (Bem Viver): Existe um ser supremo que criou todas as coisas e por isso deve ser amado e respeitado. Esta consciência faz o homem e a mulher viver em paz consigo mesmo e em harmonia com os irmãos e irmãs e ao mesmo tempo com todos os seres criados, com o mundo que nos circunda.

Como secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia e presidente do CIMI tive o privilégio de, a pedido de dom Cláudio, ser recebido pelo papa em audiência particular. Foi no dia 4 de abril de 2014, às 10 horas. A nossa conversa logicamente girou em torno da Amazônia e dos povos indígenas. Ele me falou que estava trabalhando numa Encíclica sobre a Ecologia, mas frisou logo que seria sobre “a ecologia humana”. Aí insisti: “Santo Padre, o senhor não acha que a Amazônia e os povos indígenas devem ter um lugar específico nessa encíclica?” O papa concordou na hora e me pediu que fosse falar com o cardeal Turkson, presidente da Pontifícia Comissão Justiça e Paz, encarregado de sintetizar as diversas sugestões e propostas vindas de todo mundo. Num jantar em uma “trattoria” próxima ao Palazzo di San Callisto, no bairro Trastevere, encontrei-me com o cardeal “incógnito” juntamente com o ex-presidente da Misereor Josef Sayer e o teólogo padre Paulo Suess. O cardeal convidou-me a colaborar e pediu que lhe enviasse minha contribuição. Fiz isso com muita alegria e gratidão. Enviei várias contribuições que se encontram inseridas na Encíclica nos números 37/38 (Amazônia) e 145/146 (Povos aborígenes).

 

O silêncio e a oração

Estou convicto de que na nossa vida de padre e bispo há uma dimensão que nunca pode ser descuidada – a dimensão orante-contemplativa. Rezo a Liturgia das Horas todos os dias. Rezo também o terço, às vezes – em viagens especialmente – vários terços. Se descuidamos da oração, ficamos sem ânimo e coragem para levar adiante a missão. Em momentos difíceis, o que me ajudou sempre a levantar a cabeça foi a oração, a oração dos salmos, a meditação da Palavra de Deus, o rosário. A meditação da Sagrada Escritura traz sempre uma luz quando enfrentamos a noite escura de problemas e desafios.

Sem a mística que subjaz a todo o nosso ministério não vamos longe. Até nosso engajamento “político” fica capenga, insosso: político, é claro, no sentido correto da palavra como “a mais alta forma do exercício da caridade” como dizia Paulo VI.  Não são ideias filosóficas, sociológicas, antropológicas ou humanitárias que nos fazem avançar. A base e a força motriz de todo o nosso ministério é o Evangelho. E só posso deixar-me guiar pelo Evangelho se tenho o costume de meditá-lo e de fazer a avaliação de minha vida e do meu ministério a partir da Palavra de Deus. A oração, de fato, é determinante, deve ocupar uma parte significativa em nossa vida diária. Gosto imensamente do silêncio. Tenho uma tremenda aversão à zoada, algazarra e gritaria. Deus dotou-me de um ouvido muito afinado. Assim sofro extremamente com o barulho. Graças a Deus tenho em Altamira um cantinho onde posso curtir o silêncio. Também nas minhas viagens sempre acho um lugarzinho silencioso. Levanto bem cedo ou até de madrugada para, em silêncio absoluto, poder fazer a minha “hora santa”. Essa dimensão orante sempre me ajudou, tanto em questões de ordem pessoal, como as ligadas à missão junto ao Povo de Deus.

 

O bispo e seu povo

Não falo de uma mística no sentido intimista, tipo “eu com Jesus e Jesus comigo”, mas do amor que brota do encontro com Senhor na Eucaristia diária e na oração assídua e se concretiza no amor ao próximo, ao Povo de Deus. Posso dizer que o meu relacionamento com esse povo – especialmente os pobres – tem sido muito estreito e forte. Sempre gostei de meu povo. Amo esse povo. O povo tem suas fraquezas e falhas, mas, no fundo, é um povo bom. Sinto muito carinho pelas pessoas e elas também me tratam com muito afeição. Aonde chego, há manifestações afetuosas. É muito gratificante. Por um lado é a mística, o encontro com o Senhor que nos sustenta na missão, por outro, é o encontro com o Povo de Deus. São como as duas faces da mesma moeda.

Até com gente que não reza na nossa cartilha procurei sempre nutrir um relacionamento de respeito. Nunca fiquei com ódio daqueles que infernizaram a minha vida e são responsáveis pela proteção policial que fui obrigado a aceitar e tenho até hoje. Ódio nunca senti em minha vida.

Ás vezes, fui agressivo ao denunciar injustiças, abusos e violências e não medi palavras para acusar os inimigos do povo, especialmente dos povos indígenas. Ao longo dos anos nunca deixei de denunciar os responsáveis pelas injustiças, mas talvez tornei-me mais comedido nas expressões usadas nas denúncias e prefiro hoje apelar para os sentimentos das pessoas. Por exemplo no caso de trabalho escravo: “Você já imaginou alguém de sua família passar por uma experiência dessas?”

Em relação a Belo Monte fiquei num dilema. Num lado as decisões emanadas dos chefões em Brasília, por outro lado os engenheiros e operários que tocaram a obra. Muitos deles nem sequer estavam de acordo com o projeto e o modo como está sendo executado. Mas tiveram que se calar pois no caso de reclamação ou crítica perderiam o seu ganha-pão. Assim muitos engoliram Belo Monte em seco. Especialmente as esposas sofriam com essa situação esquizofrênica, pensando até que a Igreja “excomungou” todo pessoal que trabalhava em Belo Monte. De fato, todo mundo sabia que nunca aprovei Belo Monte, mas, mesmo assim, nunca cheguei a desprezar os engenheiros e trabalhadores com suas famílias. Celebrei diversas vezes a Eucaristia na vila residencial e participei com prazer de reuniões. Crismei grandes turmas de jovens e até adultos. Como acontece em todo canto, há sempre gente que gosta de tesourar a vida dos outros e difamar o próximo. Assim espalhou-se a notícia de que o bispo odeia as pessoas que trabalham em Belo Monte. Mas já nos primeiros encontros e celebrações, descobriram que tudo isso era mentira e difamação.

 

A prelazia hoje

Alto Xingu. Para se chegar lá, é necessário viajar de avião de Altamira para Belém – uma hora de voo. Depois, de Belém para Marabá – mais uma hora de voo. Em seguida, de carro, uma viagem de mais quinhentos quilômetros de estrada, em parte bastante ruim. Aí é que começa a visita às comunidades espalhadas num imenso território. Ourilândia e Tucumã são cidades gêmeas, distam apenas 8 km uma da outra. De Tucumã para São Félix do Xingu são cento e dez quilômetros. Conheci São Félix do Xingu em 1967 com mais ou menos mil habitantes. Em 1988 o município se desdobrou em três: São Félix do Xingu, Tucumã e Ourilândia do Norte. Os três municípios juntos têm hoje mais que 200.000 habitantes. O Alto Xingu já há tempo teria todas as condições de tornar-se uma nova diocese para assim diminuir as dimensões “continentais” da maior circunscrição eclesiástica do Brasil que é a Prelazia do Xingu.

Baixo Xingu. A última paróquia ao norte da prelazia é Gurupá, que já está à margem do rio Amazonas, após a foz do Xingu. De Altamira para Gurupá, dependendo da maré, são dezesseis a dezoito horas de barco. Daí para a última comunidade, ainda são mais oito horas de viagem. Porto de Moz fica entre Gurupá e Souzel. Há comunidades em Porto de Moz que distam da sede da Paróquia um dia e meio de viagem. São paróquias muito antigas: Santo Antônio de Gurupá – 1692, São Francisco Xavier de Souzel (hoje Senador José Porfírio) – 1750 e São Braz de Porto de Moz – 1756. Nestas paróquias 90 % das comunidades só se alcançam pela via fluvial.

Tenho sempre insistido que estas paróquias tenham o seu barco próprio com um mínimo de “conforto” (banheiro, chuveiro, fogão a gás e lugar para atar a rede). Viagens que levam dias e mais dias ninguém aguenta se forem feitas de canoa-rabeta ou de barquinho. O barco garante também um mínimo de privacidade. O povo é muito hospitaleiro e quando o padre ou o bispo chega, a educação exige “fazer sala” para ele. Quantas vezes queria ficar pelo menos uns minutos sozinho para rezar o breviário ou encostar a cabeça num caibro por perto e ficar em silêncio. Era impossível pois o povo não deixa. O pessoal se reveza. “Olhe o bispo está sozinho! Menino vai lá fazer sala pra ele!” grita a mãe que está na cozinha preparando a refeição. De fato, hospedar-se na casa de uma família significa privacidade zero.

Certa vez cheguei a uma comunidade na cabeceira de um rio, muito cansado depois de uma penosa viagem. O povo me recebeu com o carinho de sempre, cantando e me abraçando. Depois da reza de um terço recheado com meditações em torno de cada mistério, fui para a casa que me foi indicada. Atei logo minha rede pois não queria outra coisa a não ser dormir. Estava exausto. Mas, esse povo que vem para a visita do bispo não se encontra todos os dias e assim a conversa vai longe. Eu já deitado, logicamente sem poder dormir. Às vezes cheguei a cochilar um pouco. De repente alguém encosta na minha rede e pergunta: “Bispo, tá dormindo?”. Respondo brincando: “’tava”. Finalmente, já tarde da noite, as conversas param. A casa, toda cheia de redes penduradas, parece um navio. Em lugares estratégicos lamparinas de querosene fumaçam até raiar o novo dia. Crianças de vez em quando começam a choramingar pois estranham o lugar onde estão. Alguns filhos de Deus roncam a serrar um bosque inteiro, outros respiram ruidosamente. Um concerto noturno dos mais diversos sons, suspiros e sopros. Não é bem uma sinfonia, mas, mesmo assim, estou feliz da vida e dou graças a Deus porque finalmente posso dormir. Pretendia, refeito das fadigas da viagem, de manhã celebrar a eucaristia com esse povo tão bom e depois participar das reuniões de costume. Mas, por volta das quatro e meia da manhã, veio o dono da casa e colocou o radinho de pilha bem debaixo da minha rede, pois pensou: “O bispo precisa ouvir o primeiro noticiário do dia para inteirar-se do que acontece pelo Brasil e o mundo afora”. Naturalmente não reclamei pois sabia que é apenas mais uma manifestação de carinho para comigo. Continuei a cochilar até o povo começar a bocejar e espreguiçar-se nas redes. “Houve uma tarde e uma manhã” – outro dia.

  • A construção da Rodovia Transamazônica (BR 230), na sua maior parte até hoje sem asfalto, aumentou consideravelmente a nossa agenda pastoral. Até então as vias de comunicação eram somente os rios. A rodovia é a concretização dos slogans “Integrar para não entregar” e “Terra sem homens para homens sem-terra” da Ditadura Militar. Lembro-me muito bem da chegada do presidente Médici em 9 de outubro de 1970 que veio – como se escrevia na época – para presidir “a solenidade de implantação, em plena selva, do marco inicial da construção da grande rodovia Transamazônica”. A Folha de São Paulo relatou naquele tempo: “O presidente assistiu emocionado à derrubada de uma árvore de 50 metros de altura, no traçado da futura rodovia, e descerrou a placa comemorativa (...) incrustada no tronco de uma grande castanheira com cerca de dois metros de diâmetro, na qual estava inscrito: “Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da República dá início à construção da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde’” A placa não ficou lá por muito tempo. Foi roubada.

A rodovia foi planejada e construída em forma de espinha de peixe. Há a espinha dorsal Leste-Oeste e a cada cinco quilômetros uma vicinal em direção ao norte e ao sul de até mais de cem quilômetros cada uma e, é claro, sem pavimentação. As comunidades se encontram à beira-faixa e ao longo das vicinais. Hoje são várias paróquias e municípios: Anapu, Vitória do Xingu com Belo Monte, Altamira, Brasil Novo, Medicilândia, Uruará e Placas.

 

Aldeias Indígenas: Os povos indígenas do Xingu foram sempre a “menina dos olhos” da Igreja desde os primeiros contatos já nos séculos XVII e XVIII. Entre 1750 e 1752 o padre jesuíta Roque Hundertpfund foi o primeiro missionário a vencer as perigosas cachoeiras da Volta Grande do Xingu. Chegou a Tacuana (ou Tauaquara) e manteve o primeiro contato com os indígenas que habitavam a região que hoje é Altamira. Há um detalhe: esse padre Roque nasceu na província austríaca de Vorarlberg, terra natal de dom Eurico, Irmão Humberto e também minha. O trabalho dos jesuítas foi bruscamente obstruído pelas desastrosas leis de Marquês de Pombal. Em 3 de setembro de 1759, o Rei de Portugal, D. José I, decidiu declarar os jesuítas “notórios rebeldes, traidores, adversários e agressores...ordenando que como tais sejam tidos, havidos e reputados”. Resultado: foram expulsos do Brasil.

A prelazia procurou sempre defender os direitos dos povos indígenas do Xingu. Os Kayapó chamaram o padre Eurico (a partir de 1971 “dom Eurico”) de “pai”. Os Padres Xaverianos trabalharam uns anos em meio aos indígenas. Inseriram-se admiravelmente na realidade kayapó. Lamento que deixaram os Kayapó do Xingu e foram para outra diocese. Hoje é o padre Patrício (verbita) e o casal Cleanton e Nilda que estão à frente da pastoral indigenista no Xingu. Aguardamos a chegada de outros padres verbitas.

Tenho o privilégio de ser filho adotivo de Moiangri, mulher do cacique Kupatô. Como mãe, ela me deu o nome “Bep Pôiti” e exigiu que doravante a chamasse de “nhirwa” (mãezinha). Possuo assim a prerrogativa de chamar de “mamãe” a três mulheres: a Maria, minha mãe biológica, a Maria, Nossa Senhora, e a Moiangri, índia kayapó. Anos atrás, quando visitei este mesmo povo, um dos caciques me disse: "wajanga benjadjwyr rax kuben kêt, ôbikwa kumrêx" (O bispo não é um branco. Ele é nosso parente). Considero essa declaração o máximo título honorário que os Kayapó têm a outorgar.

No Xingu existem três troncos linguísticos: Macro-Jê (Kayapó e Xikrin), Tupi-Guarani (Juruna, Kuruaya, Xipaya: Assuriní, Araweté, Parakanã) Karib (Arara).

 

A Amazônia e seus desafios

Vivo desde os meus 26 anos na Amazônia e aí, no Xingu. Nunca trabalhei em outra região do Brasil. Se depois de mais de 50 anos de ministério – quinze anos como padre e trinta e seis como bispo – faço uma retrospectiva da vivência da Igreja nesta região o que mais me aflige e me aperta o coração são as inúmeras comunidades sem Eucaristia. Estou convicto de que precisamos encontrar uma solução. E com urgência urgentíssima!

O celibato é uma graça e não se trata de pôr em xeque o celibato como tal. Enquanto a nossa Igreja existir haverá sempre homens e mulheres a renunciar ao matrimônio por um amor maior “por causa do Reino dos céus” (Mt 19,12). O assunto não é estar a favor ou contra o celibato, mas sim a preocupação com a celebração eucarística, o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor! Jesus não deu um bom conselho, mas uma ordem: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19; 1 Cor 11,24). Os documentos da Igreja estão cheios de reflexões bonitas sobre a Eucaristia. O Concílio Vaticano II fala da Eucaristia como “fonte e ápice de toda a Evangelização” (PO, 5). Na encíclica “Dies Domini”, o Papa João Paulo II diz que não há verdadeira comunidade cristã a não ser ao redor do altar. No caminho de Emaús, Jesus, ao explicar as Escrituras, fez arder os corações dos discípulos. Mas o encontro não terminou na estrada. Ele entrou com os discípulos na pousada “para ficar”. E foi exatamente na “fração do pão” que os discípulos o reconheceram (cf. Lc 24,13-35).

O problema é que a celebração eucarística é unica- e exclusivamente permitida se houver um padre celibatário à disposição. E, em toda a Amazônia, a escassez de padres continua alarmante. 70% das comunidades só podem participar da Eucaristia duas ou três vezes ao ano, às vezes nem isso. Quando vejo uma comunidade bem formada e organizada que todos os domingos se reúne para o culto dominical e às vezes até durante a semana para uma novena ou a reza do terço, aí me pergunto o que realmente impede a Igreja conferir a sagrada ordenação a quem há tempo preside a comunidade com tanto carinho, generosidade e dedicação. Está na hora de voltarmos, não tanto “à grande disciplina” preconizada pelo Concílio de Trento, mas às raízes da nossa Igreja. Por que motivos não pode ser retomado o que foi praxe nos primórdios da Igreja, no tempo dos apóstolos, nas comunidades que Paulo fundou, e durante séculos depois?

O papa Francisco me disse naquela audiência em abril de 2014: “Os bispos precisam fazer propostas corajosas!”. Ele realmente solicita às conferências episcopais que manifestem sua opinião. A nossa CNBB é chamada a dar sugestões ao Papa Francisco, propostas pelo menos ad experimentum.

Certa vez, numa das minhas viagens pastorais ao Alto Xingu, cheguei em uma comunidade que ao receber-me como de costume com cantos e abraços logo adiantou: “Dom Erwin, hoje o senhor vai benzer a nossa capela”, construída com todo esforço da comunidade. Estava tudo preparado como manda o figurino. O “portal” se encontrava fechado. Uma fita verde-amarela em forma de laço vedou a passagem da soleira. As duas pontas deveriam ser puxadas uma pelo bispo, outra pela catequista. Sob os aplausos do povo desatamos o laço e a porta foi aberta. Quando olhei para dentro da capela, vi na frente apenas um ambão. Aí não me contive e perguntei bem baixinho a catequista: “Minha filha, você não acha que está faltando alguma coisa?” “O que é que está faltando, dom?” sussurrou-me ela. “O altar, minha querida. A Eucaristia não é o centro de nossa fé?”. “Eu sei, dom Erwin, mas aqui nós temos Missa só duas ou três vezes ao ano. E quando o padre chega emprestamos uma mesa da escola como mais tarde vamos fazer e a cobrimos com uma toalha linda, bordada. Mas aos domingos não precisamos de altar. Só temos culto, a celebração da Palavra”. Dentro de mim soaram os sinos de alarme. E tive dificuldade de disfarçar a imensa tristeza que invadiu meu coração: mais uma comunidade sem Eucaristia. Contei essa história ao Cardeal Ratzinger quando ainda era prefeito da Congregação da Doutrina da Fé e ele me respondeu em alemão: “Bischof Kräutler, precisamos rezar mais pelas vocações!”. O posterior papa Bento XVI tinha obviamente razão. Precisamos pedir “ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Lc 10,2). Mas pensei comigo: será que a oração fervorosa para que Deus envie “operários à sua messe” nos dispensa de discernirmos e ouvirmos “o que o Espírito diz à sua Igreja” (cf. Ap 2 e 3) na escolha de quem possa receber a sagrada ordem para presidir a celebração eucarística, onde não há um padre celibatário?

Creio que a ausência da Eucaristia é uma das razões por que muitos católicos deixam a Igreja e passam para uma comunidade evangélica. Na realidade nas comunidades sem Eucaristia o povo não percebe mais a “diferença” entre católicos e evangélicos. Em ambas as comunidades só existe a “mesa da palavra”. A “fração do pão”, o momento sublime de “reconhecer” o Senhor e a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo perderam a sua centralidade.

 E além disso os pastores crentes usam de todas as estratégias para conquistar o povo. Há um templo e um pastor em cada esquina, em cada comunidade do interior. Os pastores estão presentes. O padre está ausente. Só aparece raríssimas vezes e por poucas horas. Quantas vezes o povo me perguntou: “E agora, quando vem de novo?” Essa pergunta sempre me doía no coração. Respondi sempre: “Certamente o padre não vai demorar em visitar vocês!” Sabe-se lá quando!

Lembro-me de um episódio que nunca esqueci. Estava em visita pastoral na Transamazônica. No Km 120 há uma vila que já é uma pequena cidade. Sem padre residente! O padre mora em Medicilândia e vem uma vez por mês. É até um privilégio: uma vez por mês! Parei nesta vila a caminho de Uruará. Entrei na loja de uma família conhecida e pedi um guaraná pois estava morto de sede. Aí o dono do comércio me disse: “Dom, na rua aqui atrás tem um homem que está nas últimas. Certamente vai apreciar uma visita sua.” Bebi o guaraná e fui imediatamente à casa do moribundo. Chegando lá vi o seu Francisco deitado na sala, numa esteira, e dois homens empaletozados, um de cada lado, com a Bíblia na mão revezando-se em derramar citações sobre o pobre prestes a passar desta para a melhor. Pedi licença e ajoelhei-me ao lado de seu Francisco. Chamei-o pelo nome. Ele abriu os olhos e balbuciou: “Agora sim! É meu bispo!” Ainda agradeceu a presença dos pastores e disse: “Eu sou católico”. Comecei a rezar o Pai Nosso, a Ave Maria, o Glória ao Pai. O moribundo mexeu os lábios. Ministrei o sacramento da Unção dos Enfermos e rezei as orações de encomendação de agonizantes. Poucas horas depois seu Francisco fechou os olhos para este mundo. Quantos católicos por estas plagas têm a sorte de seu Francisco de o bispo ou um padre casualmente estar passando? A imensa maioria de nossos fiéis, ou morrem sem os sacramentos, ou então estão sendo assistidos pelo pastor que mora na vila e muitas vezes ainda exige do moribundo a “conversão” à comunidade evangélica.

Há décadas se fala em redistribuição de padres. Em algumas regiões do Brasil há padres até de sobra. O que falta é espírito missionário! Não se trata de os bispos enviarem “a pau e pedra” seus padres a terras longínquas. É o presbitério que deve acordar para a missionariedade além das fronteiras da diocese. Será que é tão difícil um padre doar três ou cinco anos à uma diocese carente na Amazônia? Estou convicto de que vai voltar à sua diocese com uma bagagem rica de experiência pastoral de doação missionária que edificará a própria diocese de origem. Precisamos de padres, religiosas e religiosos que ouvem o grito do macedônio: “Vem à Macedônia, socorre-nos!” (At 16,9) – Vem à Amazônia, socorre-nos! A Igreja do Xingu tem trinta padres, vários deles já acima dos 65 anos. Mas, mesmo se dobrasse o número de padres, as quase 800 comunidades nem de longe teriam celebrações eucarísticas regulares. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas!”. Precisamos ter a coragem de encontrar novos caminhos para suprir as necessidades das comunidades. Ouço o papa Francisco repetir com sua voz inconfundível: “Sean corajudos!”

As maravilhas do Senhor

O cântico mais lindo do Breviário é o Magnificat de Nossa Senhora: “A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-56). Tudo e graça!

Às vezes caímos na tentação de olhar a nossa vida a partir do que não deu certo. Uma retrospectiva desse tipo além de ser perigosa, pois pode causar depressões, é injusta. Tremendamente injusta! É uma visão unilateral e limitada. Precisamos relativizar as experiências negativas e lembrar muito mais as maravilhas que Deus operou através de nosso serviço, mesmo que seja sempre um serviço precário, insuficiente. “Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever” (Lc 17.10). É Deus que nos chamou e Deus “sabe de que barro somos feitos” (Sl 102,14). Nossa vocação é tão bonita e vai se realizando pela graça de Deus. São Paulo dizia: “Pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril” (1 Cor 15,10).

Estou muito feliz por tudo que nestas décadas passadas pude, com a graça de Deus, realizar ou encaminhar com a ajuda de tanta gente boa. Agora, já completo um ano de emérito. Não carrego mais nos ombros o peso da última responsabilidade pela Prelazia do Xingu.

Canto também o Magnificat pelo sucessor que Deus escolheu: dom João Muniz Alves. Tive a graça de ordená-lo em São Luís do Maranhão no dia 5 de março de 2016. Em 3 de abril de 2016 tomou posse em Altamira. Foi uma linda festa que o povo do Xingu celebrou naquele dia. Fora do recinto festivo caiu uma chuva torrencial para significar as graças que Deus derrama sobre o Xingu e seu novo bispo.

Desde então moramos na mesma casa e nos entendemos muito bem. Continuo exercendo meu múnus episcopal, mesmo que não seja mais o titular da prelazia. Onde for chamado e convidado para celebrar ou dar palestras vou com muito prazer. Antes não conheci frei João, agora dom João. Mas, aquele gesto dele de me pedir que fosse o ordenante principal na sua ordenação episcopal foi de grande importância para mim e para todo o Povo do Xingu.

 

Dom João é mais um bispo negro no Brasil, dotado de uma grande facilidade de se relacionar com as pessoas. Nos primeiros meses quando ele visitou uma comunidade o povo perguntava por mim. É mais do que natural depois de meio século no Xingu e três décadas e meia de bispo. Mas, agora quando eu chego em qualquer lugar, as pessoas já me perguntam: “E como vai dom João?”. Assumi o papel de João Batista, primeiro de “preparar o caminho e aplainar as veredas” (Lc 3,4) para o novo bispo e depois de sua chegada no Xingu seguir o lema: “Ele é que deve crescer, e eu diminuir” (Jo 3,30).

“A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47).

Amém.

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